No evangelho são muitas as palavras e gestos de Cristo, que iluminam o sentido desta vocação especial: a vida consagrada.
O Papa João Paulo II no documento sobre
a Vida Consagrada “Vita Consecrata”, nos diz que se torna útil fixar o
olhar no rosto resplandecente de Cristo, no mistério da Transfiguração
(Mt 17,1-8); que convida a oração como Jesus no “monte”.
Implica um “subir no monte” e um
“descer do monte”: os discípulos que gozaram da intimidade do Mestre,
envolvidos pelo esplendor da vida trinitária, e da comunhão dos santos,
como que arrebatados até ao limiar da eternidade, são reconduzidos logo
a seguir a realidade cotidiana, onde vêem “apenas Jesus” na humildade
da sua natureza humana, e são convidados a regressar ao vale para
partilharem com ele o peso do desígnio de Deus e empreender
corajosamente o caminho da cruz.
O episódio da Transfiguração assinala
um momento decisivo no mistério de Jesus. É um evento de revelação que
consolida a fé no coração dos discípulos, prepara-os para o drama da
cruz e antecipa a glória da ressurreição. É um episódio misterioso
revivido incessantemente pela Igreja, povo a caminho do encontro
escatológico com o seu Senhor. Como os três apóstolos escolhidos, a
Igreja contempla o rosto de Cristo, para se confirmar na fé e não
correr o risco de afundar ao ver o rosto desfigurado na cruz. Em ambos
os casos, a Igreja é a Esposa na presença do Esposo, que participa do
seu mistério, envolvida pela sua luz.
Esta luz atinge todos os seus filhos,
todos igualmente chamados a seguir a Cristo, onde está o sentido último
da própria vida e dizer com o apóstolo Paulo: “Para mim, o viver é
Cristo” (Fl 1,21). Mas uma singular experiência dessa luz que dimana do
Verbo encarnado é feita pelos que são chamados a Vida Consagrada. Na
verdade, a profissão dos conselhos evangélicos coloca-os como sinal e
profecia para a comunidade dos irmãos e para o mundo. Como Pedro podem
dizer: “Senhor, é bom estarmos aqui” (Mt 17,4). Estas palavras
manifestam a tensão cristocêntrica de toda a vida cristã, exprimem o
caráter totalizante que constitui o dinamismo profundo da vocação a
Vida Consagrada: “Como é bom estarmos contigo, dedicarmo-nos a ti,
concentrar a nossa existência exclusivamente em ti!”. Quem recebeu a
graça desta especial comunhão de amor com Cristo, sente-se de certa
forma arrebatado pelo seu fulgor: “Ele é o mais belo dos homens” (Sl
45/44,3), o Incomparável.
Aos três discípulos extasiados chega o
apelo do Pai a que se ponham a escuta de Cristo: “Este é o meu Filho
muito amado: escutai-O” (Mt 17,5b), para que depositem nele toda a
confiança, façam dele o centro da vida. A luz desta palavra que vem do
alto, adquire nova profundidade o convite que Jesus lhes fizera, no
início de sua vida pública, quando os chamara a segui-Lo, arrancando-os
a sua vida normal e acolhendo-os na sua intimidade. É desta graça
especial de intimidade que brota, na Vida Consagrada, a possibilidade e
a exigência do dom total de si mesmo na profissão dos conselhos
evangélicos. Estes são mais do que renúncia, mas sim um acolhimento
específico do mistério de Cristo, vivido no seio da Igreja.
Para a Vida Consagrada está confiada a
missão de indicar o Filho de Deus feito homem como meta escatológica
para onde tudo tende, o esplendor perante o qual qualquer luz
empalidece, a beleza infinita, a única que pode saciar o coração do
homem. Na Vida Consagrada não se trata de seguir Cristo de todo o
coração, amando-O “mais que o pai ou a mãe, mais do que o filho ou a
filha” (Mt 10,37), como é pedido a todo discípulo, mas trata de viver e
exprimir isso com uma adesão “conformativa” a Cristo da existência
inteira, que antecipa a perfeição escatológica.

